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O vento do espírito
A “Missa de Pentecostes”, de João Madureira, é uma obra de tocante beleza.
Cristina Fernandes

João Madureira
Vento – Missa de Pentecostes
Sete Lágrimas
Filipe Faria e Sérgio Peixoto (direcção artística)
Murecords MU0108

Partindo de um efectivo despojado (duas vozes, viola da gamba e tiorba), mas com enormes possibilidades expressivas, o compositor João Madureira (n. 1971) criou uma obra de tocante beleza, intensa espiritualidade e refinamento ao nível da construção musical na sua “Missa de Pentecostes”, uma encomenda da comunidade da Capela do Rato estreada em Maio de 2010 e posteriormente registada no CD “Vento” do agrupamento Sete Lágrimas. Os textos em latim do Ordinário da Missa são intercalados por trechos poéticos que substituem algumas rubricas do Próprio (partes da Missa com texto variável), formando um todo coerente, onde a linguagem original do compositor estabelece um diálogo com o património musical religioso ao longo dos séculos. Uma inteligente recriação da herança gregoriana percorre não só as secções em latim mas também boa parte das criações sonoras a partir de Teixeira de Pascoaes (“O vento do espírito”), José Augusto Mourão (“Veni Sancte Spiritus”), Maria Gabriela Llansol (“pega nos fios…”), Sophia de Mello Breyner Andresen (“As fontes”) e Mário Cesariny (“Ama como a estrada começa”). Para João Madureira, que dedica a obra a José Tolentino de Mendonça, a literatura sempre foi uma paixão tão forte como a música. A sua convicção de que “o texto é música” encontra aqui uma ilustração exemplar. Não só o texto é perceptível ao ouvinte nos seus mínimos detalhes (numa abordagem que privilegia o tratamento silábico, mas não ignora o uso secular de melismas em palavras como “Alleluia”), como se converte em matéria musical pela própria fonética, pelo desenho melódico, a fluência do ritmo e da respiração e pelo enquadramento num espaço sonoro enriquecido de forma subtil ou mais incisiva pelas intervenções da viola da gamba e da tiorba. A aparente simplicidade das polifonias e as sugestivas paisagens sonoras criadas permanecem quase sempre leves e transparentes, mesmo nos momentos de maior tensão, como se deixassem passar raios de luz ou o misterioso “vento do espírito” de que fala Teixeira de Pascoaes. A sedução contemplativa da obra deve também muito à inspirada interpretação dos Sete Lágrimas, onde sobressaem as vozes límpidas e expressivas de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, as sonoridades envolventes da viola da gamba de Sofia Diniz e a tiorba cintilante de Hugo Sanches.

 

Metalingual Mouth of Music: Vertigo of Signifiers After Poststructuralism
Jelena Novak
Portuguese Music Information Centre

“Procuro Dar Uma Nova Luz à Tradição”
Teresa Cascudo
Público, 26 de Abril de 2002

“Quatro cantos e um conto de Sophia na Cornucópia”
Elisabete França
Expresso, 35 de Saneiro de 2002

Crítica de Música
Teresa Cascudo
Público, 14 de Outubro de 2003

O Poeta É Um Escutador
Augusto M. Seabra
Segunda-feira, 29 de Abril de 2002